PORCHEDDU, Alba. Zygmunt Bauman: entrevista sobre a educação. Desafios pedagógicos e modernidade líquida. Cad. Pesqui., São Paulo, v. 39, n. 137, Aug. 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-15742009000200016&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 01 de julho de 2013.
A atividade 8 desta disciplina prevê a leitura obrigatória da entrevista com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, criador das expressões modernidade líquida e modernidade sólida, termos que cunhou para sustentar sua teoria de que a sociedade atual repudia a solidez das coisas, das relações e de qualquer vínculo mais sólido que possa condenar uma pessoa a permanecer atrelada ao mesmo por tempo indeterminado, ou tempo suficiente para fazê-la perder outras oportunidades desconhecidas.
Zygmun nos fala de como a educação sólida e rígida das carteiras escolares perdeu sua força nessa nova era de conhecimento descartável, de inconstância e brevidade, exigindo um novo padrão de comunicação que desperte o interesse do alunado, sem mitigar a vontade destes em adquirir conhecimento, dando sentido ao conhecimento repassado e adquirido, dando consistência ao que se ensina na medida de sua utilidade, já que adquirir conhecimento por adquirir não faz mais sentido nessa época de grande descarte do que já não nos serve.
Lendo essa entrevista, primeiramente pensei em quão desencorajador me parece a perspectiva de dar aula nesse contexto de descartabilidade social, em oposição ao que a natureza nos clama em termos de preservação ambiental. O descarte não faz sentido para mim. Sou de outra época, em que se dava importância à preservação em geral: o conhecimento, os utensílios, as relações, os amigos, o saber, etc. Meu contexto pode ter mudado, mas minha ideia de preservação não. Logo, ainda não entendi como farei para dar conta desse tipo de relação que as pessoas possuem com o que as cerca. Sou apegada a alguns hábitos, arraigados de infância, como levar meu sapato com a sola descolada no sapateiro para que ele o ajeite e o mesmo dure mais uns 5 anos; consertar minhas calças de 8 anos de vida mas rasgadas no fundilho, juntar garrafinhas de vidro de vodca Smirnoff para fazer conservas de pimenta. Portanto, como não ensinar isso aos meus alunos? Que devemos tentar conservar ao máximo nosso produtos de subsistência e darmos mais valor ao conteúdo que à embalagem, falando em termos gerais, inclusive de relações?
Penso que essa transmutabilidade de informações e dinâmicas de relações que nos rodeia na atualidade, obriga a educação e, por consequência, os docentes a seguir um rumo completamente novo em matéria de transmissão de conhecimento.
O que primeiro muda é nossa postura de detentores do conhecimento para semeadores de ideias. Penso que o conhecimento não é propriedade do professor, da escola ou da coordenação pedagógica de uma instituição. O conhecimento não é posto, visto que sua vida se restringe à descoberta de um outro conhecimento que o sobreponha. Portanto, sempre que, na condição de professores semearmos uma ideia em nossos alunos, devemos considerar o que o aluno propõe ao ter contato com essa ideia. Isso é o que realmente importa: a construção do pensamento de cada aluno. O que de fato deve nos interessar é o que o aluno criou a partir do que foi compartilhado com ele.
Antigamente - e ainda hoje - os professores costumavam apreciar seus alunos segundo sua capacidade de memorização de uma matéria, sua capacidade de recitar um conteúdo a partir de seus estudos baseados em seus ensinamentos estruturados. Essa apreciação, a meu ver, hoje não possui lógica alguma no sentido de obtenção de conhecimento. Diante de tão forte transitoriedade e impermanência o que vale de fato é a análise e compreensão do discurso, e o produto que se obtém disso. Se essa capacidade de compreensão for dominada no sentido de entendida e praticada, qualquer novo conhecimento que se sobreponha ao anterior será assimilado com maior facilidade e a cognição é que fará sentido, dando sempre a conexão entre um aprendizado e outro, entre uma nova informação e a antiga. Isso não significa que aprender a tabuada não fará mais sentido, mas só saber a tabuada e suas funções não fará sentido sem entender como se contextualiza esse conhecimento, como se conecta a outras matérias e conhecimentos, afinal, o que se produz a partir desse saber.
Talvez o maior desafio dessa próxima era, que já principiou sua instalação, seja despertar em nós mesmos a capacidade de analisar o que os currículos nos propõe em matéria de ensino. Criticar por criticar não tem utilidade, não se obtém resultados a partir disso. Mas criticar, sugerir mudanças e apropriar-se delas ganha nova dimensão quando falamos em educação.
Também acho que a educação seguirá um rumo em que os alunos escolherão o que desejam estudar, e o que lhes motiva a busca de conhecimento. Assim não veremos pessoas frustradas, tentando entender como funcionam os processos químicos, sem sucesso, quando gostariam de estar estudando outra língua, e seus processos de comunicação. Isso não é muito mais lógico? Você fazer o que lhe motiva, com gosto e vontade, como se fosse uma brincadeira de aprender? Falo isso, pois comigo sempre funcionou assim, estudava gramática, redação e língua espanhola por vontade própria, em casa, no colégio, sem ninguém precisar mandar, mas simplesmente por gosto. Não é preciso dizer que minhas notas sempre eram as melhores nessas três matérias. No entanto, o currículo nos obrigava - e ainda obriga - a estudar o que não apreciamos, mas devemos aprender para conquistarmos uma vaga na universidade pública. Que motivação besta para adquirir conhecimento, diriam alguns. Eu diria. Mas se não conquistarmos uma vaga na universidade, como sairemos do lugar em que nos encontramos em matéria de profissão e encaixe social, se o sistema funciona exatamente dessa forma, através do título e seu encaixe no contexto de trabalho? Não estou criticando no todo esse tipo de sistema, pois acredito que possui suas qualidades, como tudo, mas critico o que nós é posto como matéria obrigatória, e como esse sistema de obtenção de títulos menospreza nossas aptidões em geral, além de ser desestimulante e cada vez mais excludente com os que não se encaixam.
Abaixo, transcrevo essa interessante citação feita por Bauman na entrevista - Marco Polo por Ítalo Calvino (1990, p.150) - que a meu ver representa bem essa condição de sistema social e seus encaixes e desencaixes:
"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer o inferno. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte dele até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o quê, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."
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